A presença da vinha e do vinho em território português remonta a tempos muito anteriores à Reconquista Cristã. Durante esse período, já era frequente encontrar plantações de videiras, bem como a produção de vinho, que se integravam tanto na economia agrícola como nos hábitos alimentares e nas tradições culturais. A partir do século XII, os documentos históricos fazem referência cada vez mais frequente à cultura da vinha, aos terrenos dedicados a essa prática, aos utensílios utilizados e às edificações construídas para o fabrico do vinho. Os forais concedidos em diversas partes do país comprovam esta realidade, sendo raros aqueles que não mencionam a vinha ou o vinho como elementos centrais da economia local. Após a conquista de Coimbra, em 1069, esta região tornou-se a principal província vinícola do país, com vinhedos distribuídos por várias zonas. A norte, as vinhas estavam divididas entre múltiplos proprietários, enquanto a sul eram maioritariamente controladas pela Sé de Coimbra, sendo o bispo uma figura de grande importância na sua expansão e investimento. Paralelamente, os grandes proprietários rurais também desempenharam um papel determinante no desenvolvimento da viticultura. Osberno, na sua “Carta do Cruzado Inglês”, ao descrever a conquista de Lisboa aos mouros, destaca a fertilidade das suas terras e a produtividade das vinhas aí existentes, atestando a importância da cultura vitivinícola nesta região. O cultivo da vinha e o fabrico do vinho, um dos primeiros indícios regulamentares da produção vinícola surge em 1258, num foral do bispo Elborensis, que estabelecia o pagamento de duas mealhas por cada carga de vinho comerciada. Já no final do século XIV, na região da Beira, era comum que cada família de agricultores possuísse pelo menos uma pequena parcela de vinha, variando entre 1000 e 1500 metros quadrados, embora algumas pudessem atingir os 4500 ou até os 6000 metros quadrados. Em certas regiões, como Riba Coa, chegou-se a proibir a existência de vinhas com menos de 20 stadales (cerca de 2000 metros de lado), como forma de incentivar o cultivo vinícola. As videiras eram cultivadas num sistema misto: algumas cresciam rente ao solo, enquanto outras se entrelaçavam nas árvores. No Douro, por exemplo, em 1342, existiam penas para quem cortasse vides que se desenvolvessem em redor das árvores. O trabalho nas vinhas exigia um esforço considerável. O camponês medieval cavava a terra com enxadas, fertilizava com estrume, podava as videiras e utilizava a técnica da mergulhia para a reprodução das plantas. O desbravamento das terras era realizado com enxadas, arados e até com o uso controlado do fogo. A plantação, conhecida como “cantadoria”, obedecia ao ciclo vegetativo da videira, sendo necessário esperar entre três a cinco anos para que uma nova plantação começasse a produzir uvas regularmente.
A enologia medieval baseava-se na transmissão empírica do conhecimento, aperfeiçoada ao longo das gerações. Após a colheita, as uvas eram levadas para o lagar, onde eram espremidas. Os lagares podiam ser feitos de pedra ou madeira, e o vinho era extraído por pressão, muitas vezes intensificada pela pisa das uvas feita por trabalhadores. Em Reguengos, por exemplo, era obrigação dos camponeses deslocarem-se ao lagar do rei para participar nesse processo. O vinho produzido era armazenado em cubas e pipos de madeira, sendo os tonéis utilizados principalmente para exportação marítima. No transporte terrestre, recorria-se a recipientes de cabedal chamados trebolhos, transportados por mulas e cavalos.

Regulamentação e importância social do vinho
A produção e comercialização do vinho estavam sujeitas a rigorosos regulamentos locais. Em Santarém, por exemplo, quem possuísse uma adega podia impedir judicialmente a instalação de um ferreiro ou tecelão nas proximidades. Na Guarda, as normas eram ainda mais detalhadas: o gado que invadisse vinhas alheias podia ser confiscado, cães que causassem danos podiam ser mortos, e era proibido vindimar antes de 29 de setembro, dia de São Miguel, sob pena de multa. A introdução de vinho de fora do concelho era severamente punida, e até as castas importadas eram restringidas. D. Afonso IV, no final do século XIV, determinou que os vinhateiros, tal como outros profissionais ligados à alimentação pública, deveriam estar registados nos municípios e garantir a qualidade e a abundância dos seus produtos. O rei era, aliás, um dos maiores viticultores do
país, gozando do privilégio de vender primeiro o seu vinho antes de qualquer outro comerciante.

O vinho na cultura portuguesa
Entre os séculos XII e XVI, o vinho esteve profundamente ligado à religião, à literatura, à saúde e à festa. O clero, além de usar o vinho nos rituais cristãos, também o produzia em larga escala para consumo próprio e para a resseção de convidados ilustres. Os mosteiros eram grandes centros de produção vinícola, escolhendo cuidadosamente os terrenos mais favoráveis ao cultivo da vinha. Na literatura, a presença do vinho é notável em diversas obras. Desde as Cantigas de Escárnio e Maldizer até “Os Lusíadas” de Camões, o vinho surge frequentemente associado ao prazer e à celebração. Gil Vicente também o menciona na peça “Pranto de Maria Parda”, enquanto António Ribeiro Chiado faz referência ao vinho na “Prática dos Compadres”. Médicos e alquimistas da época recomendavam-no para fins medicinais, sendo comum a produção de licores e misturas terapêuticas com vinho e ervas aromáticas.
Entre os séculos XVII e XVIII, a produção de vinho expandiu-se consideravelmente, tornando-se um dos principais produtos de exportação portuguesa. O Tratado de Methuen, assinado em 1703, favoreceu a entrada do vinho português no mercado britânico em troca da importação de têxteis ingleses, impulsionando ainda mais a viticultura. Durante este período, consolidou-se a fama do Vinho do Porto, cujas terras foram transformadas em socalcos para melhor aproveitamento da produção.
O vinho português abastecia tanto o mercado interno como colónias e países europeus, destacando-se as exportações para a Flandres, Alemanha, Brasil, Angola e Índia. Diferentes regiões eram reconhecidas pela qualidade dos seus vinhos, como o Algarve, a Estremadura e o Douro. Assim, o vinho consolidou-se como um elemento fundamental na cultura portuguesa, não apenas como produto agrícola, mas também como símbolo de identidade, tradição e comércio. A sua história reflete a resiliência e a engenhosidade do povo português, que ao longo dos séculos soube transformar a produção vinícola num dos pilares da sua economia e cultura.

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